Segunda-Feira, 17 de Agosto de 2026

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Segunda-Feira, 17 de Agosto de 2026 14:56

Terra Nova do Norte: Mais de dois anos após morte de Moacir Goulart, polícia indicia homem após perícia apontar arma do crime, mas MP vê contradições e quer reconstituição do homicídio; família quer justiça

A investigação sobre a morte do pecuarista Moacir dos Santos Goulart, de 48 anos, ocorrida na noite de 31 de dezembro de 2023, na Comunidade Alto Paraíso, zona rural de Terra Nova do Norte (MT), ganhou novos e importantes capítulos. Documentos do processo obtidos pela reportagem mostram que a Polícia Civil chegou a concluir o inquérito e indiciar L.P.N.D por homicídio qualificado por motivo fútil e posse irregular de arma de fogo, mas o Ministério Público de Mato Grosso entendeu que ainda existem contradições relevantes e determinou o prosseguimento das investigações.

O processo tramita na Vara Única de Terra Nova do Norte e está classificado como inquérito policial envolvendo homicídio qualificado e crimes relacionados ao Sistema Nacional de Armas.

Moacir foi atingido por um disparo de arma de fogo no tórax durante uma confraternização de fim de ano. Ele chegou a ser levado ao Hospital Municipal de Terra Nova do Norte, mas já chegou sem vida. A Polícia Civil instaurou o Inquérito Policial  para esclarecer a dinâmica dos fatos e identificar o responsável pelo disparo.

Polícia inicialmente investigou homem apontado pela esposa da vítima

O relatório final da Polícia Civil registra que, logo após o homicídio, D.G.M foi autuado pela prática de homicídio. Isso ocorreu porque a esposa de Moacir afirmou, desde as primeiras declarações, que teria presenciado Dilamar efetuando o disparo contra o marido.

Segundo a versão dela reproduzida no inquérito, durante a noite ela ouviu gritos e, ao olhar pela janela, teria visto Moacir e D.G.M próximos um do outro. A testemunha afirmou que viu o momento em que ocorreu o disparo e Moacir caiu ao chão.

A filha de Moacir também prestou declarações. Conforme o relatório policial, ela afirmou acreditar que D.G.M teria sido o responsável pela morte do pai e que sua mãe teria presenciado o crime.

Essas declarações se tornariam posteriormente um dos principais motivos para o Ministério Público questionar se o inquérito poderia ser encerrado apenas com o indiciamento de outro envolvido.

Perícia mudou o rumo da investigação

Durante as diligências, entretanto, a Polícia Civil apreendeu e encaminhou armas, munições, estojos e projéteis para exames periciais.

Entre os materiais submetidos à perícia estavam três revólveres calibre .38 e uma pistola calibre 9 mm. Também foram analisados estojos e dois projéteis, sendo um deles retirado de um veículo e outro retirado do corpo de Moacir.

O ponto decisivo para a Polícia Civil foi o resultado do confronto balístico.

Segundo o relatório final do inquérito, os exames apontaram que os projéteis apresentavam características compatíveis com disparos realizados por um revólver Taurus calibre .38, arma que havia sido apresentada às autoridades por L.P.N.D.

L.P.N.D havia relatado anteriormente que, durante a confusão, efetuou disparos contra a porta de sua residência quando outro participante da confraternização tentava entrar no imóvel. Segundo sua versão inicial, foram dois tiros em direção à porta.

A perícia comparou ainda o projétil encontrado no veículo com o retirado do corpo de Moacir. Segundo o relatório policial, foram identificadas coincidências microscópicas entre os projéteis.

Polícia indicia L.P.N.D

Com base principalmente no resultado da balística, a Polícia Civil concluiu, em junho de 2025, que havia elementos para o indiciamento de Luis Paulo.

No relatório final, o delegado responsável registrou que a materialidade e os indícios de autoria encontravam respaldo na perícia e ressaltou a contradição existente entre o resultado técnico e o depoimento da esposa de Moacir, que apontava D.G.M como autor.

Ao encerrar inicialmente a investigação, a Polícia Civil indiciou L.P.N.D por homicídio qualificado por motivo fútil e posse irregular de arma de fogo de uso permitido.

Indiciamento, contudo, não significa condenação. Trata-se de uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de elementos indicativos de autoria e materialidade, cabendo posteriormente ao Ministério Público analisar se oferece denúncia, pede novas diligências ou requer outra providência.

Ministério Público encontrou problema na primeira perícia

Depois que o inquérito chegou ao Judiciário, o Ministério Público identificou uma divergência considerada importante.

O número de série do revólver apresentado por L.P.N.D era um número, enquanto uma das versões do laudo pericial trazia numeração diferente.

Em julho de 2025, o promotor Márcio Schimiti Chueire pediu que o inquérito retornasse à Polícia Civil para esclarecimento da divergência e, caso necessário, realização de uma nova perícia. O Ministério Público destacou que o laudo balístico tinha importância direta para o indiciamento.

O Judiciário acolheu o pedido e concedeu prazo de 90 dias para as providências.

Posteriormente, a Polícia Civil informou que a Politec reconheceu que havia ocorrido erro material decorrente de falha de digitação e que o documento havia sido corrigido. Mesmo assim, o Ministério Público pediu que fosse feita uma nova perícia, por profissional diferente daquele responsável pelo primeiro exame, para evitar questionamentos futuros sobre a validade da prova.

Segunda perícia confirma que projétil que matou Moacir saiu da arma apresentada por L.P.N.D

A nova análise foi realizada pela Gerência de Perícias de Balística da Politec.

O segundo laudo que teve os exames iniciados em novembro de 2025 e tratou especificamente da caracterização das armas, projéteis e estojos e da realização de novo confronto balístico.

O resultado voltou a apontar para o mesmo revólver.

Segundo a conclusão pericial, tanto o projétil retirado do veículo, quanto o retirado do corpo de Moacir, foram expelidos pelo cano de um revólver Taurus calibre .38.

A perícia concluiu também que os nove estojos analisados haviam sido percutidos e deflagrados pela mesma arma.

Portanto, sob o ponto de vista balístico, a nova perícia confirmou novamente que o projétil retirado do corpo da vítima saiu do revólver apresentado por L.P.N.D à polícia.

Mas testemunha afirma ter visto outro homem atirar

Mesmo diante do resultado da perícia, o Ministério Público entendeu que uma questão fundamental continuava sem resposta.

A esposa de Moacir afirma categoricamente ter presenciado outro homem efetuando o disparo que derrubou seu marido.

Em manifestação de 18 de março de 2026, o Ministério Público ressaltou que, apesar de L.P.N.D ter sido indiciado pela Polícia Civil, existiam elementos suficientes para justificar a continuidade das investigações.

Na manifestação, o MP recuperou o depoimento da esposa da vítima, segundo o qual ela estava dentro da residência, observou a movimentação pela janela e afirma ter visto D.G.M diante de Moacir no momento do tiro. Ela também relatou ter ouvido outros disparos posteriormente.

A filha da vítima apresentou outra peça relevante: segundo seu depoimento, após um primeiro disparo, L.P.N.D ainda estaria dentro da residência. Depois houve uma luta entre ele e Wiliansmar e somente mais tarde L.P.N.D teria pegado sua arma e efetuado dois tiros em direção à porta.

Esse ponto pode ser fundamental para estabelecer a ordem cronológica dos disparos e esclarecer qual tiro atingiu Moacir.

Versões de L.P.N.D também foram consideradas contraditórias

O Ministério Público chamou atenção ainda para diferenças entre declarações atribuídas a L.P.N.D ao longo da investigação.

Segundo a manifestação ministerial, ele inicialmente admitiu ter efetuado ao menos disparos em direção à porta de sua residência. Em interrogatório posterior, acompanhado por advogados, negou ser autor dos disparos e optou por não responder às demais perguntas.

Para o MP, essas divergências, somadas aos depoimentos das testemunhas e à existência de vários tiros naquela noite, impedem que a dinâmica seja considerada completamente esclarecida.

MP quer reconstituição do crime

Diante das contradições, o Ministério Público determinou uma série de novas providências.

Entre elas está a reprodução simulada dos fatos, popularmente conhecida como reconstituição do crime.

O MP pediu que sejam chamados os principais presentes naquela noite, entre eles L.P.N.D, A, H, D.G.M, e Wiliansmar, para que seja reconstruída a movimentação de cada pessoa no momento dos disparos.

Depois da reprodução simulada, deverá ser realizado novo exame pericial no local, com a finalidade de verificar a trajetória dos projéteis disparados contra a porta da residência e comparar essas trajetórias com o ferimento sofrido por Moacir.

Essa diligência pode ajudar a responder uma das questões centrais da investigação: o disparo que matou Moacir poderia ter sido um dos tiros efetuados da residência contra a porta ou teria partido de outra posição, como relatado pela testemunha ocular?

O MP também solicitou que a Polícia Civil:

  • investigue a ocorrência e a autoria dos demais disparos ouvidos naquela noite;
  • realize a reprodução simulada;
  • faça perícia para reconstruir a trajetória dos projéteis;
  • interrogue Dilamar especificamente sobre as acusações feitas por Andressa e Hemili;
  • cumpra outras diligências consideradas necessárias pela autoridade policial.

Em 18 de março de 2026, a Vara Única de Terra Nova do Norte encaminhou a manifestação à Delegacia de Polícia Civil, estabelecendo prazo de 90 dias para manifestação e prosseguimento das diligências.

Necropsia mostra percurso do tiro

Outro ponto que poderá ser utilizado na reconstrução é o laudo de necropsia.

O tiro atingiu o lado esquerdo do tórax, atravessou o pulmão esquerdo, atingiu o ventrículo esquerdo do coração, transfixou o diafragma, passou pelo estômago e por alças intestinais e terminou alojado no intestino delgado. A perícia registrou ainda a direção percorrida pelo projétil no corpo da vítima.

A comparação dessa trajetória com a posição dos atiradores, da porta da residência, do veículo atingido e das demais pessoas presentes é justamente um dos objetivos das diligências solicitadas pelo Ministério Público.

Caso continua sem desfecho definitivo

Assim, embora a Polícia Civil tenha concluído uma etapa da investigação com o indiciamento de Luis Paulo, não houve até o momento, nos documentos analisados, uma definição final do Ministério Público sobre quem deverá responder judicialmente pelo homicídio.

A situação é incomum porque existem duas vertentes relevantes dentro do mesmo inquérito.

De um lado, a prova balística aponta que o projétil retirado do corpo de Moacir saiu do revólver apresentado por L.P.N.D.

De outro, uma testemunha presencial afirma ter visto D.G.M efetuar o disparo que derrubou Moacir, versão que também aparece em declarações prestadas por familiares da vítima.

Foi justamente diante desse conflito entre a prova técnico-científica e os relatos testemunhais, além da necessidade de esclarecer a sequência e a autoria dos vários disparos, que o Ministério Público decidiu manter a investigação aberta.

A última movimentação substancial relacionada à investigação constante dos documentos analisados é a determinação para continuidade das diligências em março de 2026. Em abril, houve ainda habilitação de advogado ligado a D.G.M nos autos.

Mais de dois anos após a morte de Moacir dos Santos Goulart, portanto, a principal pergunta que acompanha a família permanece: quem efetuou o disparo fatal e qual foi exatamente a dinâmica ocorrida naquela noite?

A resposta poderá depender agora da reconstituição do crime, da análise da trajetória dos tiros e dos novos interrogatórios determinados durante a investigação.

A reportagem ressalta que o indiciamento é uma conclusão da autoridade policial e não representa condenação. Todos os citados têm assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

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