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Segunda-Feira, 06 de Abril de 2026 14:10

Sorriso: Policiais são ameaçados de prisão por não fazerem trabalho de "carcereiros"

O Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso (Sinpol-MT) denunciou que, no dia 5 de abril — data comemorativa da Polícia Civil — investigadores de Sorriso teriam recebido como “presente” uma ameaça de prisão, caso se recusassem a realizar atividades consideradas desvio de função.

De acordo com o sindicato, os policiais foram orientados a atuar como policiais penais, realizando a escolta e a custódia de presos após audiências de custódia, o que, segundo a entidade, é proibido por lei. A suposta ameaça teria sido feita por um juiz durante reunião com o delegado da cidade.

O presidente do Sinpol-MT, Gláucio Castañon, criticou a situação e afirmou que há insegurança jurídica para os profissionais.
“Se o Judiciário faz ameaças de prender quem se recusa a fazer aquilo que não é sua obrigação, ou que é proibido por lei, significa que o trabalhador não tem mais nenhuma segurança jurídica”, declarou.

Segundo ele, a responsabilidade pela guarda e escolta de presos é da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus), órgão responsável pelo sistema penitenciário.
“Se alguém tem que fazer a guarda e escolta de presos durante e depois da audiência de custódia, que o juiz determine à Secretaria de Estado de Justiça, pois essa função é dela”, afirmou.


Legislação e irregularidades apontadas

O Sinpol-MT destaca que a prática contraria normas legais. Entre elas, o artigo 2º da Resolução nº 213 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece diretrizes para a audiência de custódia.

Além disso, a Lei Federal nº 14.735/2023, conhecida como Lei Orgânica Nacional da Polícia Civil, determina em seu artigo 40 que é proibida a custódia de presos em unidades da Polícia Civil, salvo em casos excepcionais e devidamente fundamentados para fins de investigação.

O sindicato também reforça que, em Mato Grosso, existe estrutura própria para essa função, sendo responsabilidade da Secretaria de Estado de Justiça, conforme o Decreto nº 1.581/2025, que define suas atribuições no sistema penitenciário.


Críticas ao sistema e responsabilização

Para o presidente do sindicato, há uma inversão de responsabilidades.
Segundo ele, caso haja irregularidades, a responsabilização não deveria recair sobre os investigadores, mas sim sobre quem tem obrigação legal de garantir a estrutura adequada.

O Sinpol-MT informou ainda que solicitou reunião com o corregedor-geral do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, José Luiz Leite Lindote, para tratar do caso.


Operação Legalidade

Desde o dia 30 de março, investigadores e escrivães da Polícia Civil em Mato Grosso iniciaram a chamada “Operação Legalidade”.

A mobilização é uma resposta à falta de implementação da Lei Orgânica Nacional da Polícia Civil, sancionada há mais de dois anos. Na prática, os profissionais passaram a exercer apenas as funções previstas em lei.


Impactos na segurança pública

Segundo o sindicato, a situação evidencia problemas estruturais que afetam diretamente a população, como:

  • Descaso do governo com a polícia investigativa;
  • Falta de efetivo, com menos de 50% do quadro previsto;
  • Demora no atendimento nas delegacias;
  • Redução na eficiência das investigações;
  • Desvio de função dos investigadores;
  • Sobrecarga excessiva de trabalho.

Carga horária acima do permitido

Outro ponto destacado é a jornada de trabalho dos policiais civis.

De acordo com a legislação, a carga horária deveria ser de 40 horas semanais, totalizando cerca de 160 horas mensais, como ocorre com os demais servidores públicos.

No entanto, segundo o sindicato, há casos em que investigadores chegam a cumprir:

  • 192 horas de plantão;
  • Mais 192 horas de sobreaviso.

A situação pode levar a uma jornada de até 384 horas mensais, mais que o dobro do previsto em lei.

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