De acordo com os investigadores, os suspeitos teriam se aproveitado da estrutura, da imagem e da credibilidade de uma marca de veículos conhecida mundialmente para conquistar a confiança dos consumidores.
Os clientes entregavam veículos usados como parte do pagamento e realizavam transferências para a aquisição de outros automóveis. No entanto, conforme a investigação, parte do dinheiro era direcionada para contas de pessoas físicas e empresas ligadas aos investigados, sem seguir o fluxo comercial regular da concessionária.
Veículos usados eram desviados
A Polícia Civil apurou que automóveis entregues pelos clientes como entrada na compra de veículos novos teriam sido encaminhados a terceiros e, posteriormente, transferidos para empresas relacionadas ao grupo.
Essas operações, segundo a investigação, não eram devidamente registradas nem contabilizadas pela concessionária.
A Justiça reconheceu indícios de que o mesmo método teria sido repetido diversas vezes. O esquema envolveria a conquista da confiança dos consumidores, obtenção de documentos de transferência, desvio de veículos, alteração das condições de financiamento e direcionamento de pagamentos para contas estranhas à relação comercial.
O grupo também teria utilizado contas bancárias próprias, de terceiros e de pessoas jurídicas para receber e movimentar os valores. Algumas empresas, conforme a Polícia Civil, podem ter sido usadas para dar aparência de legalidade ao dinheiro.
Prejuízo passa de R$ 2 milhões
Até o momento, a Polícia Civil identificou entre 15 e 20 potenciais vítimas. O prejuízo diretamente comprovado já ultrapassa R$ 2 milhões, mas o valor poderá aumentar com o avanço das diligências e o aparecimento de novos consumidores lesados.
A análise financeira apontou ainda que pessoas e empresas vinculadas aos investigados movimentaram aproximadamente R$ 50 milhões durante o período de um ano.
A Polícia Civil ressalta, na prática, que os R$ 50 milhões representam a movimentação financeira analisada e não o prejuízo comprovado. O dano individualizado até agora é superior a R$ 2 milhões.
Na reportagem publicada em julho, o JK Notícias informou que as perdas poderiam chegar a R$ 5 milhões, conforme estimativas e relatos obtidos naquele momento. A investigação oficial ainda está contabilizando os prejuízos e procurando outras vítimas.
Mais de 20 ordens judiciais
A Operação Pátio Paralelo cumpre mais de 20 determinações expedidas pela Justiça, entre elas:
- Um mandado de prisão preventiva;
- Sete mandados de busca e apreensão;
- Nove ordens de afastamento de sigilo bancário;
- Cinco ordens de bloqueio de ativos financeiros;
- Sequestro de bens e veículos;
- Indisponibilidade patrimonial até o limite de R$ 2 milhões;
- Afastamento dos sigilos fiscal e telemático.
As buscas abrangem imóveis, empresas e outros locais ligados aos investigados. Os policiais foram autorizados a apreender celulares, computadores, notebooks, tablets, HDs, cartões de memória, documentos, contratos, comprovantes de transferências, registros financeiros e veículos.
A Justiça também autorizou a extração e análise dos dados armazenados nos equipamentos eletrônicos apreendidos. O objetivo é identificar a divisão de tarefas, reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro e descobrir se outras pessoas ou empresas participaram do esquema.
Investigada teria papel central
Entre as determinações está um mandado de prisão preventiva contra uma investigada apontada como responsável por uma parte central da operação do suposto esquema.
Conforme a decisão judicial citada pela Polícia Civil, ela teria atuado na captação dos clientes, condução das negociações, recebimento dos veículos usados, direcionamento dos pagamentos e movimentação dos recursos.
Denúnicias relatadas ao JK identificam a vendedora Vitória Sara Bezerra Mota como suspeita em diferentes negociações. Os documentos também mencionam a Rodobens Toyota como o local em que parte dos negócios teria sido realizada. A Polícia Civil, no comunicado da Operação Pátio Paralelo, não identificou formalmente a concessionária nem confirmou publicamente o nome da investigada alvo da prisão.
Homem pagou R$ 100 mil por Corolla
Um dos casos revelados pelo JK envolve um homem que relatou ter pago R$ 100 mil por um Toyota Corolla. Ele já havia negociado anteriormente com a vendedora e, por isso, confiou na proposta. Inicialmente, transferiu R$ 5 mil e, depois, outros R$ 95 mil para uma conta pessoal indicada por ela.
O carro, entretanto, não foi entregue. A vítima descobriu posteriormente que o mesmo Corolla estava sendo anunciado por outra pessoa em um grupo de venda de veículos.
Após ser questionada, a vendedora teria prometido devolver o dinheiro, mas, conforme o boletim, transferiu apenas R$ 500. Depois disso, alegou que sua conta bancária havia sido bloqueada e deixou de responder às mensagens.
Cliente depositou R$ 200 mil
Outro boletim, registrado em abril, relata que uma cliente realizou dois depósitos de R$ 100 mil, totalizando R$ 200 mil, para a compra de um veículo.
Nesse caso, os pagamentos teriam sido realizados presencialmente para uma conta vinculada ao CNPJ da empresa. O automóvel deveria ter sido entregue no dia 21 de abril, mas a cliente afirmou que não recebeu o veículo.
Conforme o relato, uma representante da concessionária informou que o dinheiro recebido havia sido transferido para outra conta, cujo destinatário ainda estava sendo apurado.
Negociação de Hilux envolveu R$ 325 mil
Um terceiro consumidor relatou que negociou uma Toyota Hilux no final de dezembro de 2025.
Ele afirmou ter transferido inicialmente R$ 34 mil como sinal e, posteriormente, mais R$ 186 mil, totalizando R$ 220 mil. Depois de aproximadamente dois meses sem receber o veículo, pediu a devolução do dinheiro.
Diante da demora, decidiu comprar uma caminhonete mais nova e transferiu outros R$ 105 mil. O cliente chegou a receber a segunda Hilux, mas descobriu posteriormente que o débito do veículo permanecia aberto junto à concessionária.
Os pagamentos que deveriam quitar a negociação não teriam sido repassados à empresa.
Ocorrências anteriores
Documentos analisados pela reportagem também mostram que o nome da mesma vendedora aparece em ocorrências anteriores, registradas entre 2023 e 2026.
Em um caso envolvendo uma loja de móveis, o proprietário relatou que pagamentos feitos por clientes, no valor aproximado de R$ 56,7 mil, teriam sido direcionados para uma conta ligada à então funcionária.
Em outra negociação de móveis planejados, uma cliente afirmou que pagou R$ 90 mil, sendo R$ 60 mil por meio da entrega de um veículo e R$ 30 mil em transferências. A empresa teria recebido somente o automóvel, enquanto os pagamentos via Pix foram destinados a uma pessoa jurídica vinculada à suspeita.
Há ainda boletins com relatos de contas bancárias que teriam sido abertas em nome de terceiros sem autorização, além de empréstimos, dívidas e transferências não reconhecidas.
A Polícia Civil não informou se todas essas ocorrências anteriores foram formalmente incluídas no inquérito da Operação Pátio Paralelo.
Por que “Pátio Paralelo”?
O nome da operação faz referência ao destino que teria sido dado aos carros usados entregues pelos consumidores.
Em vez de seguirem para o pátio e para o sistema regular da concessionária, os veículos seriam enviados para um circuito paralelo, passando por terceiros e por empresas ligadas aos investigados.
Para a Polícia Civil, esses automóveis constituíam um dos principais instrumentos usados pelo grupo para obter vantagem patrimonial indevida.
As investigações continuam para localizar veículos, identificar a destinação final do dinheiro e verificar a participação de outras pessoas físicas e jurídicas.
Os fatos ainda estão sob investigação, e os envolvidos são considerados suspeitos até eventual condenação definitiva. O espaço permanece aberto para manifestação da investigada, de sua defesa, da concessionária e das demais empresas mencionadas nos boletins de ocorrência.