A investigação da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) de Sinop apura, em tese, os crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, exploração de jogos de azar, captação ilegal de apostas e sonegação fiscal.
Os bloqueios são cautelares e não significam que todo o dinheiro tenha sido localizado nas contas.
Movimentações milionárias
Segundo a Polícia Civil, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou R$ 26.586.728 em movimentações consideradas atípicas entre agosto de 2023 e dezembro de 2025. O valor envolve oito titulares e 17 comunicações financeiras.
Separadamente, dados da e-Financeira apontaram R$ 28.046.956,80 em créditos e débitos relacionados a Natiele entre 2023 e março de 2026. Os valores possuem períodos e metodologias diferentes e, por isso, não devem ser somados.
A investigação afirma que aproximadamente R$ 17,8 milhões passaram por contas diretamente ligadas à influenciadora. Um relatório fiscal também apontou que, enquanto os créditos bancários teriam ultrapassado R$ 13,3 milhões, constavam apenas R$ 148,54 em rendimentos líquidos declarados nas informações analisadas.
A Polícia Civil sustenta que parte do dinheiro teria sido enviada por empresas ligadas ao setor de apostas e intermediadoras de pagamentos. Os recursos, conforme a investigação, eram posteriormente distribuídos para familiares, colaboradores e empresas relacionadas ao grupo.
Limites dos bloqueios
A maior ordem individual foi direcionada a Natiele, com limite de R$ 13.381.579,74. Também foram autorizados bloqueios de até:
- R$ 1.980.358 em nome de Andreia da Silva;
- R$ 1,5 milhão em nome de Roseli Fagundes Marques;
- R$ 897 mil em nome de Johannes Santos Guimarães da Silva;
- R$ 706,4 mil em nome de Edilson Xavier da Silva;
- R$ 100.915,28 em nome de Sun Chunyang.
As ordens alcançaram ainda as empresas Lumiere Soluções Audiovisuais, Naama Mega Hair, Mercado e Açougue Europark e Cash Pay Meios de Pagamento.
Em decisão complementar, a Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 1.414.020,65 em uma conta pertencente à filha de Natiele. A Polícia Civil afirma que a conta teria sido utilizada pela mãe para receber valores relacionados à divulgação de jogos.
Também foi determinado o bloqueio de até R$ 195.328 em nome de Renata Nicolly Brandão Olivieri Prado Ramos. O limite contra a Cash Pay foi elevado para R$ 207.079,90.
Redes sociais e passaportes
A Justiça também determinou o bloqueio de contas utilizadas por Natiele e Andreia nas redes sociais. As duas ficaram proibidas de acessar, operar ou criar perfis próprios ou de terceiros para divulgar jogos de azar, captar apostadores ou receber valores ligados às plataformas investigadas.
Natiele, Johannes e Sun Chunyang tiveram os passaportes apreendidos ou bloqueados. Natiele, Andreia, Johannes e Sun também deverão comparecer mensalmente à Justiça.
Outros investigados foram proibidos de manter contato entre si. A única exceção foi concedida a Natiele e Johannes, que vivem como casal, mas eles não podem conversar sobre a investigação ou sobre as provas produzidas.
Foram autorizadas buscas em residências e estabelecimentos comerciais, além do acesso aos dados de celulares, computadores, servidores virtuais e arquivos armazenados em nuvem eventualmente apreendidos.
Dois imóveis localizados no bairro Europark, em Sorriso, tiveram o sequestro decretado. Em relação aos veículos citados pela Polícia Civil, a magistrada entendeu que eles poderiam ser apreendidos durante as buscas e indeferiu, naquele momento, o pedido específico de sequestro.
Viagens e patrimônio
A representação policial menciona viagens para Paris, Disney, Coreia do Sul, Itália, Argentina, Turquia e Fernando de Noronha. Também foram citadas a compra de uma bolsa avaliada em aproximadamente R$ 25 mil, festas de alto padrão, imóveis, veículos e investimentos em empresas.
Para a polícia, o patrimônio seria incompatível com a renda formal identificada. A autoridade policial afirma ainda que Natiele mantinha perfis com mais de 100 mil seguidores e um grupo de WhatsApp utilizado para distribuição de links de apostas.
Bloqueios negados
Nem todos os pedidos da Polícia Civil foram aceitos. A Justiça negou o bloqueio das empresas Bytech, HKP Pay e de outras plataformas apontadas como não autorizadas.
A juíza considerou que a ausência de autorização administrativa, isoladamente, não seria suficiente para bloquear judicialmente os valores. Segundo a decisão, a fiscalização das operadoras cabe à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, e uma nova análise poderá ocorrer caso sejam apresentados elementos diretamente relacionados aos crimes investigados.
Defesa teve acesso aos autos
No dia 19 de agosto, a Justiça autorizou a habilitação dos advogados de Natiele e Johannes e garantiu acesso às provas já documentadas, preservando apenas eventuais diligências ainda em andamento.
Uma das advogadas afirmou que informações aparentemente retiradas do processo sigiloso já estariam circulando publicamente enquanto a defesa ainda não tinha acesso ao conteúdo. Nos documentos analisados, não consta manifestação detalhada sobre o mérito das acusações.
A Polícia Civil informou ao juízo que praticamente todas as medidas cautelares já haviam sido cumpridas. Permaneciam pendentes somente as diligências relacionadas a Sun Chunyang e à Cash Pay, que ainda não tinham sido localizados.
O caso permanece em fase de investigação. Não há condenação, e todos os citados possuem direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. O espaço permanece aberto para manifestação das defesas.