Processo envolve mais de R$ 2 bilhões e Justiça aponta indícios que podem configurar crimes financeiros; conglomerado foi fundado pelo ex-prefeito de Sorriso Dilceu Rossato e pelo empresário Pedro de Moraes Filho
Um novo e pesado capítulo foi aberto na recuperação judicial do Grupo Safras. A Justiça de Mato Grosso determinou que a Polícia Federal, o Banco Central do Brasil e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sejam acionados diante de indícios de possíveis crimes financeiros envolvendo a condução dos negócios e acontecimentos relacionados ao processo de recuperação judicial do conglomerado.
O caso envolve cifras que ultrapassam a casa dos R$ 2 bilhões e está entre os maiores processos de recuperação judicial ligados ao agronegócio de Mato Grosso.
O Grupo Safras tem forte ligação com Sorriso. O conglomerado foi fundado em 2010 pelo empresário Dilceu Rossato, ex-prefeito de Sorriso, e Pedro de Moraes Filho, atuando principalmente nos setores de armazenagem, processamento e comercialização de grãos, além da produção de etanol de milho.
Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (8), a Justiça identificou elementos considerados suficientes para encaminhar informações aos órgãos federais responsáveis pela fiscalização e investigação do sistema financeiro. A medida não representa condenação dos envolvidos, mas abre caminho para que eventuais irregularidades sejam analisadas pelos órgãos competentes.
A recuperação judicial do Grupo Safras vem sendo marcada por uma verdadeira batalha entre empresários, credores, instituições financeiras e diferentes núcleos empresariais e familiares.
Documentos apresentados por credores no processo apontaram suspeitas relacionadas a confusão patrimonial, movimentação de ativos e possíveis operações que teriam retirado bens do alcance dos credores.
Também foram levantados questionamentos sobre mudanças realizadas na estrutura patrimonial das famílias e empresas ligadas ao conglomerado.
Entre os episódios colocados sob questionamento está o divórcio entre Dilceu Rossato e Cátia Randon. Conforme publicado pelo Folhamax, credores sustentam que documentos indicariam a possibilidade de o divórcio ter sido utilizado como instrumento para proteção patrimonial.
A alegação, entretanto, é contestada. Cátia e integrantes do chamado Núcleo Randon sustentam que suas empresas possuem trajetória própria e não deveriam responder integralmente pelo passivo atribuído ao Grupo Safras.
Antes da crise financeira, o Grupo Safras chegou a movimentar cifras expressivas no agronegócio mato-grossense, com faturamento anual próximo de R$ 7 bilhões, segundo informações publicadas sobre o processo.
A deterioração financeira teria começado a se intensificar a partir de 2023, em meio à queda dos preços de commodities, problemas de safra, restrição de crédito e crescimento do endividamento.
A aquisição da Copagri também aparece entre os fatores apontados como relevantes para o aumento das obrigações financeiras do conglomerado.
A recuperação judicial foi protocolada em 2025 e, desde então, passou por sucessivas disputas judiciais envolvendo composição do grupo econômico, afastamento de administradores, intervenção judicial, patrimônio das empresas e direitos dos credores.
Dados referentes ao processo indicam um quadro de créditos superior a R$ 2,1 bilhões, envolvendo centenas de credores.
Além da investigação que poderá alcançar a esfera federal, outra disputa importante ocorre em torno de quem ficará responsável pela administração das empresas.
Na Assembleia Geral de Credores realizada no último dia 4 de setembro, a situação dos integrantes da recuperação judicial teve encaminhamentos diferentes.
No caso específico de Luiz Eduardo Randon Rossato, seus credores aprovaram o afastamento do interventor judicial de suas atividades.
A decisão vale exclusivamente para ele e não significa, neste momento, a retirada do interventor das demais empresas e empresários envolvidos na recuperação.
Para outros integrantes dos núcleos Safras e Randon, as deliberações foram adiadas.
O próximo capítulo da disputa está marcado para esta sexta-feira, 11 de setembro, quando os credores voltarão a se reunir.
Entre os assuntos que deverão ser discutidos estão a continuidade ou revogação do afastamento dos gestores, a permanência do interventor judicial e a análise de atos realizados durante o período de intervenção.
Enquanto credores discutem o futuro administrativo e financeiro das empresas, a determinação para envio de informações à Polícia Federal, Banco Central e CVM aumenta ainda mais a dimensão do caso.
Os órgãos poderão analisar se as movimentações apontadas dentro do processo possuem apenas natureza empresarial e civil ou se existem elementos que justifiquem investigações na esfera administrativa ou criminal.
Por enquanto, não existe condenação definitiva dos gestores pelos fatos mencionados. As suspeitas deverão ser submetidas à apuração pelos órgãos competentes.
O JK Notícias acompanha o caso.