O homem disse que ele estava em uma praia acompanhado de Sarinha momento que deixou o celular carregando e se afastou por alguns instantes. O aparelho teria permanecido desbloqueado e com o aplicativo bancário aberto. Posteriormente, ao consultar a conta, ele percebeu que havia uma transferência via TED, no valor de R$ 5 mil, agendada para uma conta bancária pertencente a Sarinha que ele afirma não ter autorizado.
Ainda de acordo com o homem, depois do episódio, Sarinha alegou estar passando mal e foi levada por ele até a rodoviária. O homem disse que, naquele momento, ainda não sabia da transferência. Após descobrir a movimentação bancária, ele teria procurado Sarinha em seu prédio para solicitar a devolução do dinheiro.
Segundo sua versão, ela reagiu de maneira hostil, afirmou que ele estaria invadindo a propriedade e, posteriormente, teria se comprometido a devolver a quantia.
O homem declarou que o dinheiro não foi devolvido.
Sarinha afirma que dinheiro foi emprestado
Antes do homem procurar a polícia, Sarinha se adiantou e foi à delegacia onde fez um boletim contra o mesmo homem, por ameaça e injúria.
Em seu depoimento, Sarinha afirmou que o conheceu quando ele era cliente da empresa onde trabalhava e que os dois mantinham uma relação de amizade. Segundo Sarinha, o homem teria emprestado uma quantia em dinheiro e, depois disso, passou a acreditar que existia um relacionamento amoroso entre os dois.
Sarinha relatou que começou a receber cobranças, mensagens, telefonemas insistentes, ofensas e supostas ameaças. Ela também declarou que o homem foi até o prédio onde mora e tentou localizar seu apartamento perguntando aos moradores.
Sarinha informou à polícia que possuía áudios enviados pelo homem em tom que considerou ameaçador e ofensivo. Apesar de afirmar que nunca havia sido agredida fisicamente, disse temer por sua integridade física e psicológica e solicitou medidas protetivas de urgência.
QUEM É “SARINHA DA TOYOTA?”
A ex-funcionária da Toyota de Sorriso, Vitória Sara Bezerra Lupatini, conhecida como “Sarinha”, é considerada foragida da Justiça. Ela é apontada como o principal alvo da Operação Pátio Paralelo, deflagrada nesta quarta-feira (26) pela Polícia Civil.
Contra Vitória Sara foi expedido um mandado de prisão preventiva. Até a última atualização divulgada nesta quarta-feira, ela ainda não havia sido localizada pelas equipes policiais.
Conforme apurado somente Vitória Sara teria movimentado aproximadamente R$ 12 milhões entre contas pessoais e jurídicas no período compreendido entre maio de 2025 e julho de 2026.
Já o grupo investigado teria movimentado cerca de R$ 50 milhões durante um ano. A Polícia Civil apura crimes de desvio de veículos, estelionato em negociações comerciais, associação criminosa e lavagem de capitais.
A ação ocorre cerca de um mês depois de o JK Notícias revelar, com exclusividade, denúncias contra a então vendedora. Na reportagem publicada em 28 de julho, vítimas relataram pagamentos realizados, veículos que não foram entregues e carros usados que teriam desaparecido do fluxo regular da concessionária.
Principal alvo da operação
Sara foi o principal alvo da operação e teria exercido papel central no funcionamento do suposto esquema. Ela teria atuado especialmente na captação dos clientes, condução das negociações, recebimento dos veículos usados, direcionamento dos pagamentos e movimentação dos recursos.
Sara também aparece identificada como Vitória Sara Bezerra Mota ou Vitória Sara Bezerra Mota Lupatini.
A Polícia Civil realiza buscas para cumprir o mandado de prisão preventiva.
Concessionária seria uma das principais vítimas
A investigação é conduzida pela Delegacia Municipal de Sorriso, por meio do Núcleo de Combate ao Crime de Estelionato e Lavagem de Dinheiro.
As diligências começaram depois que foram constatadas inconsistências comerciais e financeiras em negociações realizadas dentro de uma concessionária do município.
De acordo com as novas informações, a própria concessionária também é considerada uma das principais vítimas do grupo. A estrutura, a credibilidade e o nome de uma marca conhecida mundialmente teriam sido utilizados pelos investigados para conquistar a confiança dos consumidores.
Embora parte das negociações ocorresse dentro da empresa, os pagamentos eram direcionados para contas pessoais, de terceiros ou de pessoas jurídicas vinculadas aos suspeitos.
Os boletins de ocorrência obtidos pelo JK Notícias citam a Rodobens Toyota como o estabelecimento no qual parte das negociações teria ocorrido. A nota oficial da Operação Pátio Paralelo, entretanto, não divulgou formalmente o nome da concessionária.
Carros usados eram desviados
O esquema teria como um dos principais métodos o recebimento de veículos usados como entrada na compra de automóveis novos.
Segundo a investigação, depois de receberem os carros dos clientes, os suspeitos desviavam os veículos para outras garagens ou empresas relacionadas ao grupo. Os valores correspondentes aos automóveis usados não eram abatidos corretamente da nova negociação.
Em algumas situações, os veículos eram posteriormente transferidos ou vendidos a terceiros, sem o registro e a contabilização regular pela concessionária.
A Justiça reconheceu indícios da repetição do mesmo método em vários negócios. A suspeita é que os envolvidos conquistavam a confiança dos clientes, recolhiam documentos de transferência, desviavam veículos, manipulavam as condições de financiamento e direcionavam pagamentos para contas estranhas à relação comercial.
Empresas vinculadas aos investigados também teriam sido utilizadas para conferir aparência de legalidade aos recursos.
R$ 12 milhões, R$ 50 milhões e prejuízo de R$ 2 milhões
Os valores divulgados representam diferentes pontos da investigação.
Vitória Sara teria movimentado aproximadamente R$ 12 milhões entre suas contas pessoais e jurídicas. Considerando todos os integrantes e empresas investigadas, a movimentação chegaria a R$ 50 milhões em um ano.
Esses valores não significam, necessariamente, que todo o dinheiro tenha origem criminosa ou represente prejuízo às vítimas. A Polícia Civil ainda realiza a reconstrução das movimentações financeiras.
Até o momento, o prejuízo diretamente identificado ultrapassa R$ 2 milhões. A apuração aponta entre 15 e 20 potenciais clientes vítimas, além da própria concessionária.
O valor poderá aumentar com o avanço da investigação e a localização de novos consumidores prejudicados.
Na matéria publicada anteriormente pelo JK Notícias, as perdas eram estimadas em até R$ 5 milhões com base nos relatos e documentos apresentados pelas vítimas. Esse montante ainda depende da individualização e confirmação pela investigação policial.
Homem pagou R$ 100 mil por Corolla
Um dos casos revelados pelo JK Notícias envolve um homem que pagou R$ 100 mil para comprar um Toyota Corolla. Ele já havia negociado anteriormente com Vitória Sara e, por isso, confiou na proposta apresentada.
Primeiramente, o cliente transferiu R$ 5 mil. Depois, realizou outro pagamento de R$ 95 mil para uma conta pessoal indicada pela vendedora.
Mesmo após o pagamento integral, o Corolla não foi entregue. O homem descobriu posteriormente que o mesmo veículo estava sendo oferecido por outra pessoa em um grupo de venda de automóveis.
Ao ser questionada, a investigada teria prometido devolver o dinheiro. Segundo o boletim, porém, ela transferiu apenas R$ 500 e posteriormente alegou que sua conta bancária estava bloqueada pela polícia.
O cliente ainda procurou a concessionária em busca de uma solução, mas registrou a ocorrência após não conseguir receber o veículo nem recuperar o valor pago.
Cliente depositou R$ 200 mil
Uma outra vítima relata que uma cliente realizou dois depósitos de R$ 100 mil, totalizando R$ 200 mil, para comprar um veículo.
Os pagamentos foram realizados presencialmente para uma conta vinculada ao CNPJ apresentado durante a negociação.
O automóvel deveria ser entregue no dia 21 de abril, mas a vítima afirmou que não recebeu o carro. Conforme o relato, uma representante da concessionária informou que o dinheiro teria sido transferido para outra conta, cujo destinatário ainda estava sendo identificado.
Negociação de Hilux envolveu R$ 325 mil
Outra vítima relatou ter negociado uma Toyota Hilux no final de dezembro de 2025.
O cliente transferiu inicialmente R$ 34 mil como sinal e posteriormente pagou mais R$ 186 mil, totalizando R$ 220 mil.
Depois de aproximadamente dois meses sem receber a caminhonete, ele pediu a devolução do dinheiro. Diante da demora, decidiu adquirir uma Hilux mais nova e transferiu outros R$ 105 mil.
O homem chegou a receber a segunda caminhonete. Posteriormente, porém, descobriu que o débito referente ao veículo permanecia aberto junto à concessionária.
De acordo com o boletim, os pagamentos feitos pelo cliente não teriam sido devidamente repassados para quitar o automóvel.
Relatos anteriores envolvendo lojas e contas bancárias
O nome da investigada aparece em boletins registrados antes das negociações envolvendo a concessionária.
Em um dos casos, o proprietário de uma loja de móveis relatou que pagamentos realizados por clientes, no valor aproximado de R$ 56,7 mil, teriam sido direcionados para uma conta vinculada à então funcionária.
A empresa descobriu a situação quando começou a cobrar clientes que apareciam como inadimplentes. Eles apresentaram comprovantes e informaram que haviam sido orientados a depositar os valores em outra conta.
Em uma negociação de móveis planejados no valor de R$ 90 mil, uma cliente afirmou ter entregado um veículo avaliado em R$ 60 mil e transferido mais R$ 30 mil. A empresa teria recebido somente o automóvel, enquanto as transferências via Pix foram destinadas a uma pessoa jurídica vinculada à suspeita.
Outras ocorrências registradas entre 2023 e 2024 relatam contas bancárias supostamente abertas em nome de terceiros sem autorização, além de empréstimos, dívidas e transferências não reconhecidas.
A Polícia Civil ainda não informou se todas essas ocorrências anteriores fazem parte formalmente da Operação Pátio Paralelo.
Mais de 20 ordens judiciais
Para a operação, a Justiça expediu mais de 20 determinações, incluindo um mandado de prisão preventiva, sete mandados de busca e apreensão, nove ordens de afastamento de sigilo bancário e cinco ordens de bloqueio de ativos financeiros.
Também foram autorizados o afastamento dos sigilos fiscal e telemático, o sequestro de bens e a indisponibilidade patrimonial até o limite de R$ 2 milhões.
Os policiais podem apreender celulares, computadores, notebooks, tablets, HDs, pendrives, cartões de memória, contratos, comprovantes de transferências, documentos financeiros e veículos relacionados aos fatos investigados.
Os dados armazenados nos aparelhos eletrônicos poderão ser extraídos e analisados para identificar a divisão de tarefas, o caminho percorrido pelo dinheiro e a eventual participação de outras pessoas e empresas.
Operação Pátio Paralelo
O nome da operação faz referência ao suposto circuito paralelo criado para receber e negociar os veículos entregues pelos consumidores.
Em vez de seguirem para o pátio e para o sistema regular da concessionária, os carros eram supostamente desviados para terceiros, garagens e empresas relacionadas aos investigados.
As investigações continuam para localizar Vitória Sara, recuperar veículos e bens, identificar a destinação final dos valores e verificar se outras pessoas físicas ou jurídicas participaram do esquema.
Os investigados são considerados inocentes até eventual condenação definitiva. O espaço permanece aberto para manifestação da defesa de Vitória Sara, da concessionária e das demais pessoas e empresas mencionadas.