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Quinta-Feira, 18 de Junho de 2026 13:51

Sorriso: Grupo Lermen tenta ampliar proteção em recuperação judicial e reforça sinais de crise financeira

O Grupo Lermen voltou à Justiça para tentar ampliar a proteção contra cobranças, apreensões e perda de bens ligados à sua operação rural. O movimento ocorreu depois de o conglomerado já ter conseguido suspender, por 60 dias, ações e medidas de cobrança movidas por credores convidados para uma mediação empresarial.

A nova tentativa, agora dentro de um pedido de recuperação judicial, foi vista por credores como mais um sinal da fragilidade financeira do grupo, que declarou dívidas superiores a R$ 633 milhões.
A 4ª Vara Cível de Sinop registrou que o Grupo Lermen pediu a antecipação de proteções normalmente concedidas quando uma recuperação judicial começa a tramitar. Na prática, o grupo queria impedir medidas como bloqueios, apreensões, retirada de máquinas, tomada de posse de áreas, despejos e outras ações sobre bens, lavouras e produtos agrícolas. O pedido, porém, foi negado pela Justiça, que considerou a medida precipitada.

A Justiça também determinou que o grupo apresente documentos e informações complementares antes de uma decisão sobre o andamento da recuperação judicial. Entre os pontos exigidos estão a lista completa de credores, informações sobre funcionários, extratos bancários atualizados, relação de processos em curso, bens do grupo e um relatório detalhado sobre a situação operacional das atividades rurais. O prazo dado foi de 15 dias, sob risco de indeferimento do pedido.

O Grupo Lermen sustenta que sua crise financeira foi causada principalmente por fatores externos, como seca, dificuldades no mercado do algodão e prejuízos ligados à chamada Operação Safra Desviada.

ANTES

 

Credores e agentes do mercado do agro estão questionando o discurso do Grupo Lermen de que sua crise financeira decorre principalmente de fatores externos — como seca, dificuldades na cadeia do algodão e prejuízos ligados à chamada Operação Safra Desviada. Isso porque o grupo ostenta passivo declarado superior aos R$ 633 milhões e, antes mesmo de conclusão de mediação com os credores, conseguiu ter o patrimônio blindado por ordem da juíza Giovana Pasqual, da 4ª Vara Cível de Sinop. Parte dos financiadores do clã Lermen demonstraram a insatisfação com a blindagem concedida.

O grupo iniciou procedimento de mediação empresarial alegando necessidade de construir um ambiente de negociação para reorganizar dívidas. Entretanto, a cronologia dos fatos mostra que, paralelamente à abertura das tratativas, o conglomerado também buscou tutela cautelar antecedente para suspender medidas de cobrança e constrição patrimonial. Mediação estava prevista para ocorrer em 29 de abril, contudo, a juíza proferiu decisão que proibiu ações de execuções contra os Lermen naquele dia 16.

O conglomerado familiar é composto por Buritis Transportes LTDA, Transportes São Pedro LTDA, Agropecuária Dona Hilda LTDA, Campo Santo LTDA, Dalila Lermen LTDA, Adriana Lermen Bedin, Alexandro Lermen, Patrícia Lermen, Oli Baltazar Lermen e Dalila Lermen.

Na prática, o mecanismo garantiu ao grupo uma proteção temporária contra execuções movidas por credores convidados para a mediação, dentre eles grandes bancos como Santander, John Deere, Itaú, J Safra, Caterpillar e diversas outras empresas do agronegócio. A própria decisão registra que os efeitos produzem resultado semelhante a uma blindagem patrimonial típica do chamado stay period previsto em recuperações judiciais.

“Consigno que a tutela ora deferida produz efeitos práticos análogos à blindagem patrimonial assegurada pelo stay period, motivo pelo qual o prazo de suspensão ora concedido deverá ser deduzido do período previsto no art. 6o da Lei 11.101/05, caso sobrevenha pedido de processamento de Recuperação Judicial”, nos termos da ordem.

Nos bastidores do setor, a sequência dos acontecimentos provocou desconforto entre as instituições e empresas que possuem créditos milionários com a família. A mediação empresarial pressupõe construção de confiança entre as partes e disposição efetiva para negociação. Credores questionam se o ambiente negocial começou já desequilibrado, uma vez que parte do poder de pressão foi reduzida antes mesmo da conclusão das tratativas conciliatórias, já que a blindagem foi imposta pela Justiça.

Também chama atenção a tentativa de concentrar a narrativa da crise em episódios recentes. Os próprios documentos apresentados pelo grupo indicam uma estrutura de endividamento ampla e construída ao longo do tempo, envolvendo bancos, securitizadoras, fornecedores de insumos, fabricantes de máquinas e empresas ligadas à cadeia agrícola.

Nesse contexto, ganha força entre credores uma crítica específica: a de que não se sustenta atribuir a origem do endividamento bilionário à suposta fraude investigada pela Operação Safra Desviada. O próprio grupo aponta prejuízo estimado de R$ 140 milhões relacionado ao episódio, sendo que, mesmo se considerado integralmente, o valor representa apenas parte do passivo declarado superior a R$ 633 milhões, o qual vem escalando ao longo dos anos e não somente diante da ocorrência desarticulada pela ofensiva policial.

Sob a condição de anonimato, credores que socorreram o grupo quando a empresa já havia esgotado as possibilidades de crédito, afirmam estar indignados com a má-fé nas negociações. Além do prejuízo financeiro, enfrentam acusações criminais que, segundo eles, estão sendo demonstradas como falsas, pois estaria comprovado que o endividamento é antigo e decorre de gestão temerária dos negócios.

A composição das dívidas sugere uma dinâmica financeira mais longa e complexa. Bancos, fundos, securitizadoras, fornecedores de insumos, empresas de máquinas e parceiros comerciais não aparecem numa estrutura dessa magnitude por consequência de um único evento. Trata-se de uma engrenagem de crédito construída ao longo de anos, baseada em sucessivas operações financeiras, ampliação de limites e contínua necessidade de capital.

Não se trata de uma dívida surgida de forma repentina. Instituições financeiras e parceiros comerciais concederam recursos apostando na capacidade produtiva, patrimonial e operacional do grupo. Em outras palavras, os credores emprestaram em ambiente de confiança e boa-fé negocial, sustentando uma operação que continuou expandindo sua estrutura ao longo do tempo.

Para parte dos investidores no clã, a questão central deixa de ser a existência da crise — hoje reconhecida pelo próprio Grupo Lermen — e passa a ser outra: até que ponto fatores externos explicam o cenário atual e quanto da deterioração financeira resulta de uma estrutura altamente alavancada que já demonstrava sinais de fragilidade antes dos acontecimentos mais recentes.

Safra Desviada

Em fevereiro, a operação foi desencadeada pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). O Olhar Direto teve acesso à época a lista que continha os 19 alvos da ofensiva. A ação cumpriu 180 medidas cautelares autorizadas pela Justiça no âmbito de uma investigação que apura o desvio de grãos e prejuízos estimados em R$ 140 milhões ao Grupo Lermen e a outras empresas do setor.

A investigação apura suspeitas de formação de organização criminosa, furto qualificado, estelionato contra idoso, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Conforme apurado, o grupo teria operado um esquema estruturado de desvio sistemático de soja, milho e algodão, com manipulação de registros internos, movimentações financeiras incompatíveis com a capacidade econômica declarada e utilização de empresas para dissimular valores.

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