Um enorme cardume de abotoados, também conhecidos como armal, foi flagrado próximo à superfície do rio Teles Pires, entre Mato Grosso e Pará. Vídeos registrados no local mostram milhares de peixes concentrados em um único trecho do rio, cenário que especialistas relacionam às mudanças ambientais provocadas após a implantação da Usina Hidrelétrica de Teles Pires, em 2016.
Um dos vídeos, gravado pelo pescador Edgar Pacheco, mostra uma ‘infestação’ do peixe da espécie Pterodoras granulosus ao longo do Rio Teles Pires, na região de Itaúba (MT). Nas imagens, é possível ver dezenas de exemplares em um cardume, todos próximos da superfície.
A presença desses peixes na região teria iniciado após a implantação da Usina Hidrelétrica de Teles Pires, entre Paranaíta (MT) e Jacareacanga (PA), em 2016. Mas, segundo especialistas e ribeirinhos, a reprodução da espécie estaria ocorrendo de forma incontrolável ao longo dos anos.
Ainda nas imagens, o pescador diz que a espécie está “virando praga” e que a quantia de abotoados é tamanha que daria para pegá-los “com as mãos”.
Essa forte reprodução do abotoado, também conhecido como armal, na Bacia Teles Pires pode afetar não só a existência de outras espécies de água doce, mas também a pesca, já que é considerado um peixe de ‘segunda mão’, com carne pouca saborosa.
Um estudo publicado na Revista Aracê em outubro do ano passado demonstra essa crescente dos peixes no rio que corta ambos os estados, por meio de dados coletados entre 2006 e 2024.
Entenda o estudo
No estudo , pesquisadores observaram que o peixe apresenta alta capacidade de adaptação, alimentação variada e reprodução ativa, características que podem favorecer o estabelecimento da espécie em diferentes trechos do rio Teles Pires.
Além disso, os autores Eliane Dias de Oliveira Pedro, Mendelson Guerreiro de Lima e Solange Aparecida Arrolho da Silva, apontam que esse avanço pode estar relacionado às mudanças ambientais ocorridas no Teles Pires, principalmente após a implantação da usina.
Os registros do granulosus apontam que a espécie era encontrada naturalmente no baixo curso do rio, pois não conseguia ultrapassar um trecho de corredeiras chamado de Sete Quedas, na divisa entre Mato Grosso e Pará.
Mas, a partir de 2016, após a implantação da usina, a cachoeira teria sido submersa, nivelando as águas da região, o que facilitou o deslocamento do abotoado para porções superiores do rio, como aponta o estudo.
O Primeira Página procurou representantes da hidrelétrica para esclarecer o assunto, mas não obteve retorno até o momento.
A forte reprodução do abotoado
Ainda conforme o estudo, o sucesso do peixe em novas áreas se deve principalmente à capacidade de migrar longas distâncias e à diversidade alimentar, o que permite a adaptação em diferentes ambientes e recursos.
Peixe de couro, o abotoado possui um corpo coberto por fileira de placas ósseas, coloração cinza uniforme, cabeça estreita, focinho longo e olhos grandes, com aparência considerada ‘pré-histórica’.
A espécie pode atingir até 80 cm de comprimento e 8 kg. Apesar da dieta omnívora, ele é comumente chamado de peixe ‘aproveitador’, podendo se alimentar de itens disponíveis no local onde ele estiver, desde moluscos e camarões de água doce, larvas de insetos, frutos e sementes, pequenos peixes e detritos do fundo dos rios.
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