Hospital voltou a recomendar a desinternação do homem que matou a tia e arrancou o coração dela em Sorriso, mas magistrada destacou que primeira experiência fora da unidade terminou em ameaças e violência contra familiares
A Justiça de Mato Grosso decidiu manter internado Lumar Costa da Silva, autor de um dos crimes de maior repercussão já registrados em Sorriso. Em julho de 2019, ele matou a própria tia, Maria Zélia da Silva Cosmo, de 55 anos, a facadas, abriu o tórax da vítima e retirou o coração.
A nova decisão ocorre após a equipe do Centro Integrado de Assistência Psicossocial à Saúde (CIAPS) Adauto Botelho, em Cuiabá, apresentar novamente relatório favorável à desinternação de Lumar. Apesar da avaliação médica, a juíza Caroline Schneider Guanaes Simões, da 2ª Vara Criminal de Cuiabá, entendeu que ainda não existem elementos suficientes para autorizar seu retorno ao convívio social.
A magistrada determinou que a Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec) realize, com urgência, um novo exame de cessação de periculosidade. Até que o resultado seja entregue e analisado pela Justiça, Lumar permanecerá internado no Adauto Botelho.
Segundo o relatório mais recente da equipe responsável pelo acompanhamento, Lumar apresenta atualmente relativa estabilidade clínica.
Os profissionais apontaram que ele estaria lúcido, orientado e cooperativo, com discurso organizado, humor estável e sem sinais atuais de delírios, agitação, comportamento agressivo ou sintomas psicóticos agudos. Diante desse quadro, a equipe considerou possível uma nova tentativa de tratamento fora da unidade.
A Defensoria Pública também se manifestou favoravelmente ao tratamento em liberdade. Já o Ministério Público se posicionou contra a desinternação.
Para a juíza, entretanto, o fato de Lumar demonstrar estabilidade dentro de um ambiente hospitalar, onde existe controle de medicamentos e acompanhamento permanente, não permite concluir automaticamente que ele deixou de representar risco quando colocado em liberdade.
Relatórios anteriores também registraram diagnóstico de Transtorno de Personalidade Antissocial, além do histórico psiquiátrico que levou a Justiça a considerá-lo inimputável.
O histórico recente pesou na decisão.
Em junho de 2025, depois de avaliações médicas favoráveis, a Justiça autorizou a desinternação de Lumar. Ele deixou o hospital e foi para o interior de São Paulo, onde deveria permanecer sob supervisão familiar e realizar acompanhamento pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
Entre as condições estavam acompanhamento médico, comparecimento periódico ao Caps, continuidade do uso das medicações, proibição de consumo de bebidas alcoólicas e drogas e outras restrições determinadas judicialmente.
Na época, o JK Notícias acompanhou o caso e mostrou a preocupação dos familiares de Maria Zélia com a possibilidade de Lumar voltar ao convívio social.
A filha da vítima, Patrícia Cosmo, chegou a relatar medo após a autorização judicial.
“Não sei o que vou fazer, acabou nossa paz”, afirmou Patrícia na ocasião, relatando que ela e os filhos estavam com medo da saída de Lumar.
Os temores ganharam ainda mais força meses depois.
Após deixar a internação, Lumar voltou a apresentar comportamentos considerados agressivos e ameaçadores. Em Campinas, no interior paulista, ele passou a ser acusado de perseguir e ameaçar a ex-companheira, com quem manteve relacionamento e teve uma filha.
A situação resultou na concessão de medidas protetivas pela Justiça de São Paulo e em investigação policial.
Diante dos novos episódios, a Justiça de Mato Grosso revogou a desinternação e determinou que ele voltasse para uma unidade psiquiátrica.
Ele foi localizado em Campinas em novembro de 2025 e posteriormente voltou ao Adauto Botelho, em Cuiabá.
A tentativa de retirar Lumar da internação não é recente.
Em fevereiro deste ano, a Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) já havia negado, por unanimidade, um habeas corpus que buscava suspender a medida de segurança e permitir que ele deixasse novamente a unidade.
Na ocasião, o Tribunal entendeu que os episódios registrados depois da desinternação de 2025, somados ao histórico do caso e à necessidade de proteção de terceiros, justificavam a continuidade da internação.
Agora, mesmo após um novo relatório médico favorável, a Justiça voltou a adotar cautela.
O crime ocorreu em 2 de julho de 2019, em Sorriso, e ganhou repercussão nacional pela brutalidade.
Lumar estava hospedado na residência da tia, Maria Zélia da Silva Cosmo, quando a atacou com facas. Depois dos golpes, abriu o tórax da vítima e retirou o coração.
Após matar Maria Zélia, ele deixou a residência carregando o órgão e foi até a casa de uma das filhas da vítima, onde mostrou o que havia feito.
As investigações também apontaram que Lumar roubou dinheiro e um veículo e tentou fugir. Durante a sequência dos fatos, houve ainda uma tentativa de levar uma menina de apenas 7 anos, integrante da família.
Na fuga, ele acabou chegando a uma subestação de energia, onde colidiu o veículo e posteriormente foi preso em uma ação das forças de segurança.
O JK Notícias acompanha o caso desde então. Em reportagem anterior, familiares relataram que o episódio deixou marcas profundas e que a possibilidade de Lumar voltar às ruas provocava medo e insegurança.
Apesar da gravidade dos crimes, Lumar não recebeu uma pena de prisão convencional.
Durante o processo judicial, avaliações apontaram transtornos mentais e a Justiça concluiu que ele era inimputável, expressão utilizada quando se considera que uma pessoa, por condição mental, não possuía capacidade de compreender plenamente o caráter ilícito de seus atos ou de se determinar de acordo com esse entendimento no momento do crime.
Com isso, ele foi absolvido sumariamente com imposição de medida de segurança, passando a cumprir tratamento em regime de internação psiquiátrica em relação aos crimes de feminicídio, furto, roubo e dano qualificado.
Registros anteriores também apontam que, durante o período em que esteve no sistema prisional, antes de ser encaminhado definitivamente ao tratamento psiquiátrico, Lumar chegou a se envolver em um grave episódio contra outro detento, que teria sido enforcado por ele dentro de uma cela no presídio Ferrugem, em Sinop.
Com a decisão mais recente, a recomendação do Adauto Botelho não significa que Lumar será desinternado.
A Politec deverá fazer uma avaliação específica para verificar se houve, efetivamente, cessação da periculosidade.
Somente depois que esse laudo chegar ao processo a Justiça deverá voltar a analisar se existem condições para substituir a internação por tratamento ambulatorial.
Até lá, por determinação da juíza Caroline Schneider Guanaes Simões, Lumar Costa da Silva continuará internado no Adauto Botelho, em Cuiabá.