O ex-perito criminal Thyago Jorge Machado, preso por colocar aproximadamente um quilo de cocaína no carro da ex-companheira para incriminá-la, pretendia “matá-la em vida”, segundo o delegado André Rigonato, da Delegacia Especializada de Repressão a Narcóticos (Denarc).
Thyago foi preso na segunda-feira (31 de agosto), no condomínio Alphaville, localizado no bairro Jardim Itália, em Cuiabá. Segundo a Polícia Civil, o suspeito não aceitava o fim do relacionamento e teria preparado um plano para fazer com que a mulher fosse presa injustamente por tráfico de drogas.
Durante entrevista coletiva nesta terça-feira (1º), o delegado comparou a gravidade da conduta investigada aos crimes de violência doméstica e feminicídio. A pena prevista para o tráfico de drogas varia de cinco a 15 anos de prisão.
“A intenção seria matar essa vítima em vida”, afirmou o delegado, ao explicar que a mulher poderia permanecer anos presa por um crime que não cometeu.
Chaveiro foi contratado para abrir o carro
Prints de uma conversa obtidos pela imprensa mostram que Thyago teria contratado um chaveiro para conseguir entrar no carro da ex-companheira.
Ao solicitar o serviço, o suspeito teria mentido ao profissional, afirmando que sua esposa havia perdido a chave do veículo e que a chave reserva estava dentro do automóvel. Ele ainda teria dito que precisava abrir o carro para evitar que o casal ficasse do lado de fora de casa.
Na conversa, Thyago indicou um horário específico para o chaveiro comparecer ao local. A escolha teria sido feita porque a vítima estaria trabalhando e, dessa forma, não presenciaria a abertura do veículo.
Após o porta-malas ser aberto, o ex-perito teria colocado aproximadamente um quilo de cocaína dentro do carro. Em seguida, deixou o estacionamento utilizando o próprio veículo.
Denúncia levou policiais até a vítima
A Diretoria de Inteligência da Polícia Civil recebeu, no domingo (30), uma denúncia informando que havia droga sendo transportada no automóvel da mulher. O caso foi repassado à Denarc, que iniciou as diligências.
Durante a abordagem, os policiais encontraram a cocaína dentro do veículo. A mulher afirmou que desconhecia a origem do entorpecente e entregou voluntariamente o celular para auxiliar na apuração.
Desesperada, ela relatou que estava sendo perseguida pelo ex-companheiro, que não aceitava o término, e levantou a suspeita de que ele pudesse ter colocado a droga no automóvel.
Conforme a investigação, Thyago teria feito a denúncia falsa com o objetivo de provocar a abordagem e a prisão da ex. A análise das informações e dos aparelhos celulares permitiu aos policiais reconstruir a maneira como o veículo foi aberto e identificar a participação do suspeito.
Tentativa de fuga no Alphaville
Após reunir os primeiros elementos, os investigadores seguiram até o condomínio onde Thyago morava. Ao perceber a aproximação das equipes, ele tentou fugir e se escondeu entre plantas de uma residência.
O suspeito acabou localizado e preso por policiais da Denarc. A ação contou com apoio aéreo do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer).
Thyago deverá responder por tráfico de drogas, denunciação caluniosa, ameaça, resistência e violência doméstica e familiar contra a mulher. A ex-companheira solicitou medidas protetivas.
Irmão de advogada vítima de feminicídio
Thyago Jorge Machado é irmão da advogada Thays Machado, assassinada a tiros juntamente com o namorado, Willian César Moreno, em janeiro de 2023, em Cuiabá.
O crime foi cometido por Carlos Alberto Gomes Bezerra, conhecido como Carlinhos Bezerra, ex-companheiro de Thays. De acordo com a acusação, ele também não aceitava o fim do relacionamento e monitorava a rotina da vítima.
Carlinhos Bezerra foi posteriormente condenado a 36 anos de prisão pelo duplo homicídio.
Ex-perito foi investigado pela Polícia Civil de Sorriso
Thyago trabalhou como perito da Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec). Ele foi exonerado após um processo administrativo que constatou o exercício de atividade em uma empresa privada de perícias enquanto estava afastado do serviço público com licença remunerada para qualificação profissional.
Em junho de 2025, o ex-perito também foi alvo da Operação Mente Perita, conduzida pela Polícia Civil de Sorriso com apoio da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção.
A operação investigou um suposto esquema de fraude em laudos periciais e cobrança de propina. Conforme a apuração, Thyago teria solicitado R$ 2 milhões para interferir no resultado de uma perícia relacionada a uma disputa judicial por terras avaliada em aproximadamente R$ 50 milhões.
Na ocasião, os policiais apreenderam na residência dele uma pistola calibre .380, 82 munições intactas e uma máquina utilizada para contar cédulas.
O ex-perito ainda foi investigado por irregularidades relacionadas a um laudo do atropelamento que matou o verdureiro Francisco Lúcio Maia, em Cuiabá, em 2018. O documento teria reproduzido partes de uma perícia elaborada em 2014.
As investigações sobre a cocaína encontrada no carro da ex-companheira continuam. Até a publicação desta matéria, não havia sido divulgada manifestação da defesa de Thyago sobre as acusações. O espaço permanece aberto.