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Segunda-Feira, 15 de Junho de 2026 14:53

Canal Rural faz matéria especial de Boa Esperança do Norte, a cidade que brotou da terra e é sinônimo de inovação, coragem e agro sustentável

Entre o vermelho da terra e o verde das lavouras, Boa Esperança do Norte cresceu cercada por histórias de coragem, trabalho e persistência. Emancipado em 1º de janeiro de 2025, o mais novo município de Mato Grosso carrega em suas ruas, propriedades rurais e famílias a marca daqueles que apostaram no Cerrado quando ainda havia poucas estradas, nenhuma infraestrutura e muitas incertezas.

Atualmente, Boa Esperança do Norte possui cerca de 9 mil habitantes, uma economia fortemente baseada no agronegócio e aproximadamente 470 empresas instaladas. Mas antes de alcançar o desenvolvimento, os primeiros moradores precisaram enfrentar o isolamento, as dificuldades logísticas e o desafio de transformar a terra bruta em oportunidade.

Grande parte desses pioneiros veio da Região Sul do país, principalmente do Rio Grande do Sul, em busca de uma vida melhor. Muitos chegaram sem garantias, movidos apenas pela esperança de construir um futuro para os filhos.

Foi assim com o agricultor Armelindo Fabiani, que relembra os primeiros anos na região.

“Eu trabalhei aqui cinco anos só com arroz, e a primeira lavoura que consegui fazer com o meu dinheiro foi de 23 hectares. O meu sonho era dar uma vida melhor para os meus filhos. A preocupação minha e da minha esposa sempre foi oferecer algo melhor do que nós tivemos”, conta.

Dos atoleiros ao asfalto

Quando os primeiros produtores chegaram à região, praticamente não existia infraestrutura. A energia elétrica era limitada, as estradas dificultavam o transporte da produção e até a comunicação com familiares era precária.

Armelindo Fabiani afirma que deixar Boa Esperança nunca foi uma opção, apesar das dificuldades.

“Aqui não tinha nada, era puro Cerrado. Foi sofrido. Naquela época, para sair daqui e ir até Sorriso, levava-se praticamente um dia inteiro. Nós não fomos embora em 1989 ou 1990 porque não tinha para quem vender. Chegamos a ficar apenas seis famílias por aqui”, relembra.

O pecuarista Dirceu Prates Corrêa recorda que a iluminação funcionava por meio de motores a diesel, acionados apenas em determinados horários do dia.

“A iluminação era gerada por motor a diesel e funcionava apenas duas vezes por dia”, relata.

As dificuldades no escoamento da produção também marcaram os primeiros anos. O agricultor Dilvão Roberto Pase lembra que os caminhões atolavam constantemente nas estradas de chão.

“Naquela época enfrentávamos muitos problemas para escoar a produção. As estradas eram muito ruins. O caminhão saía e muitas vezes não voltava, porque atolava. Em diversas ocasiões precisávamos interromper a colheita para socorrer caminhões presos na lama”, recorda.

Com o passar dos anos, a infraestrutura começou a melhorar.

“Foi tudo mudando aos poucos. Trouxemos a energia elétrica para cá, vinda de Sorriso, e alguns anos depois o asfalto finalmente chegou”, destaca.

O agro como motor do desenvolvimento

A economia de Boa Esperança do Norte é sustentada principalmente pela produção de soja, milho e algodão, atividades que impulsionam o crescimento do município e geram emprego e renda para milhares de famílias.

Para o agricultor Moacir Antônio Guarnieri, o desenvolvimento da cidade está diretamente ligado ao agronegócio.

“A soja, o milho e o algodão estão crescendo com muita força, e o clima daqui é espetacular. Cerca de 80% das famílias dependem do agro, seja trabalhando nas fazendas, prestando serviços, atuando nos armazéns ou mesmo no setor público. Quando o agro vai bem, toda a cidade vai bem”, afirma.

O prefeito Calebe Francio destaca que o município nasceu dentro do campo e mantém essa essência até hoje.

“Aqui foi a cidade que entrou dentro do campo, e não o campo que entrou dentro da cidade. Nossa linguagem é o agro e continuará sendo, porque essa é a locomotiva que move Boa Esperança do Norte”, afirma.

Para os moradores mais antigos, a emancipação representa também o reconhecimento de uma história construída ao longo de décadas.

“É uma satisfação ver essas pessoas que hoje têm a idade do meu pai e de tantos outros pioneiros, na faixa dos 80 anos. São verdadeiros heróis brasileiros. Agora somos cidadãos boa-esperancenses. Não somos mais sorrisenses nem nova-ubiratanenses”, destaca Moacir.

Desenvolvimento que transforma famílias

O crescimento do município também abriu oportunidades para pequenos produtores e famílias da agricultura familiar. Uma cooperativa presidida por Armelindo Fabiani atende atualmente cerca de 320 famílias, oferecendo financiamento de insumos e assistência técnica.

Entre os beneficiados está o agricultor Ervino Adolfo Gebhardt. Antes de investir na produção rural, ele trabalhou durante cinco anos como entregador em uma loja de materiais de construção.

O primeiro plantio foi modesto, mas marcou o início de uma nova trajetória.

“Começamos com 15 hectares de soja. No segundo ano, passamos para 30 hectares. Fomos pagando as contas, conquistando crédito e crescendo aos poucos”, relata.

Após 25 anos no campo, Ervino afirma que a agricultura proporcionou estabilidade e qualidade de vida para sua família.

“Hoje temos conforto, equipamentos agrícolas, tratores, pulverizadores, colheitadeiras e uma estrutura que construímos com muito trabalho. Sempre gostei da agricultura e dizia que um dia chegaria lá. E deu certo. Sem o agronegócio, o que seria da cidade?”, questiona.

Além do apoio aos produtores, a cooperativa também investe em ações sociais. O engenheiro agrônomo Carlos Antônio de Sá Brito explica que parte dos recursos retorna para a comunidade.

“Apoiamos escolas, grupos da terceira idade e diversas iniciativas sociais. É o agronegócio de Boa Esperança do Norte ajudando a movimentar a economia e promovendo o desenvolvimento regional”, afirma.

O secretário municipal de Agricultura, Meio Ambiente, Turismo e Desenvolvimento, Cassiano Pase, acredita que praticamente todas as famílias do município dependem, de alguma forma, do setor.

“Hoje é difícil encontrar uma família que não esteja ligada ao agronegócio em alguma escala ou atividade”, destaca.

Produção com preservação

O crescimento agrícola de Boa Esperança do Norte também foi acompanhado pela adoção de tecnologias e práticas voltadas à preservação ambiental.

O plantio direto, a rotação de culturas e o uso de tecnologias de monitoramento ajudam a reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência produtiva. Sensores, satélites e ferramentas digitais passaram a fazer parte da rotina das propriedades rurais.

Cassiano Pase destaca que a preocupação ambiental acompanha o desenvolvimento do município desde o início.

“Nossa preocupação sempre foi preservar a qualidade da água, proteger a fauna e conservar a vegetação nativa da região”, afirma.

Segundo ele, preservar o Cerrado é garantir um legado para as futuras gerações.

“Precisamos deixar para nossos filhos e netos uma terra produtiva, mas também rica em beleza, biodiversidade e qualidade ambiental.”

O prefeito Calebe Francio reforça que o município mantém áreas preservadas e trabalha para conservar seus recursos naturais.

“Quem observa o mapa do município percebe a preservação das matas ciliares, das APPs e das áreas de conservação, onde ainda é possível encontrar toda a riqueza da fauna e da flora do Cerrado”, ressalta.

O sonho que criou raízes

Depois de décadas vivendo em Boa Esperança do Norte, muitos pioneiros não se imaginam longe dali. O município que começou como um pequeno núcleo no meio do Cerrado tornou-se lar, história e legado.

“Faz 30 anos que cheguei aqui com a mudança, e daqui não saio mais”, afirma o pecuarista Dirceu Prates Corrêa.

Aos 83 anos, Armelindo Fabiani olha para trás com orgulho da trajetória construída.

“A persistência valeu a pena. Estou muito feliz por tudo o que construímos. A vida é assim, feita de desafios e conquistas”, diz.

Para Dilvão Roberto Pase, a emancipação representa a realização de um sonho coletivo.

“É um sonho realizado. Ver toda a família aqui, ver o município crescer e se tornar independente é algo muito gratificante. É bom demais”, conclui.

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