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Estratégias para Diminuir a Presença de Milho Tiguera no Campo
17 de Maio, 2017
Esta matéria tem:

No atual cenário agrícola, a sucessão entre a cultura da soja e de milho se torna cada vez mais consistente nas diversas regiões agrícolas brasileiras. Ao passo que a cultura do milho segunda safra, em 2017, apresenta pela 8ª vez consecutiva aumento de área, totalizando aproximadamente 11,3 milhões de hectares (Gráfico 1), o que representa um aumento em torno de 7,0 % em relação à safra anterior, segundo 6º Levantamento Agrícola da Conab, 2017.


Gráfico 1 - Área de Produção de Milho no Brasil (1980-2015)

Assim como ocorre o aumento da área cultivada de milho segunda safra em sucessão à cultura da soja, assistimos no campo o avanço da adoção de híbridos com biotecnologia resistente ao herbicida cuja base é a molécula de glyphosate, o que tem favorecido o surgimento de plantas de milho voluntárias – também conhecidas como tigueras na cultura da soja – que apresentam o mesmo gene de resistência ao herbicida (foto 1).


Foto 1 - Milho voluntário na cultura da soja. Foto: Leandro Franzon (Representante Comercial da DuPont Pioneer)

Na safrinha 2010/11, do total de sementes comercializadas de milho, aproximadamente 6% eram resistentes à molécula de glyphosate, representando um volume de pouco mais 11 mil sacos, segundo a Associação Paulista dos Produtores de Sementes e Mudas – APPS (Gráfico 2). Esse índice aumentou extremamente rápido e atingiu cerca de 306 mil sacos na safra 2016/17, incremento de 2.650%. Somado a este fato, 95% dos 38 milhões de hectares de soja cultivados na mesma safra são geneticamente modificadas com resistência à molecula de glyphosate.


Gráfico 2: Evolução de adoção da tecnologia RR no Brasil no período entre 2011 e 2016. Fonte: APPS, 2017

Sem a menor dúvida, isso significa dificuldades para o produtor controlar a presença de milho voluntário na cultura da soja, pois com a adoção simultânea de um mesmo evento biotecnológico entre a cultura antecessora/sucessora passou a se utilizar a mesma molécula em pós-emergência. Esta prática acaba por onerar mais os custos de produção, dificultar o controle do milho tiguera e, como consequência, reduz a produtividade, já que as plantas voluntárias de milho competem por água, luz e nutrientes com a cultura da soja.

Uma das melhores estratégias para diminuir a presença de milho tiguera no campo é minimizar as perdas de colheita através da correta regulagem da colheitadeira, evitando ao máximo a perda de grãos e espigas. Estes cuidados contribuem para a não germinação dos grãos de milho que se transformariam em plantas voluntárias e competiriam com a soja. Todavia, se as perdas na colheita acontecerem, é necessária a adoção de uma medida de controle químico, como a intervenção com herbicida de mecanismos de ação diferentes do glifosato – que, neste caso, são os graminicidas.

A grande dificuldade em controlar plantas tigueras de milho é que as mesmas apresentam diferentes fluxos de germinação, ou seja, a frequência e intensidade de emergência variam de acordo com as condições climáticas de cada região, do sistema de produção, da qualidade de manejo, condução da lavoura, entre outros.

De acordo com um trabalho realizado pela Fundação ABC (2012), sobre o potencial de dano da matocompetição de milho com o gene Roundup Ready 2™, em lavouras com cultivares de soja resistentes ao herbicida glifosato pode ocorrer redução na produtividade da cultura de acordo com o número de plantas de milho voluntárias por metro quadrado, na seguinte ordem: 1 planta.m-2, 2 plantas.m-2 e 4 plantas.m-2, conforme foto 2.


Foto 2 – Plantas voluntárias de milho em meio a cultura da soja.

O gráfico abaixo apresenta resultados da comparação de produtividade de acordo com os níveis de densidade das plantas voluntárias em relação à soja. Neste estudo, a interferência de 1 planta.m-2, 2 plantas.m-2 e 4 plantas.m-2, representou perdas em produtividade na ordem de 29,8%, 44,5% e 64,4% em comparação à testemunha.


Gráfico 3: Potencial de dano - plantas voluntárias de híbridos com gene Roundup ReadyTM Milho 2 em lavouras de soja. Fonte: Fundação ABC

As perdas em produtividade são relevantes e claramente refletem em impacto econômico para a propriedade. Além disso, é importante ressaltar que a magnitude dos danos pode ser ainda maior, já que as plantas voluntárias servem como hospedeiras de insetos-praga e patógenos causadores de doenças que podem levar a quebra de resistência das biotecnologias no controle de insetos-alvo, multiplicação de insetos-vetores e doenças.

No caso das plantas voluntárias de milho resistentes ao glifosato também serem geneticamente modificadas para resistir ao ataque de insetos – as conhecidas plantas Bt (Bacillus thuringiensis) –, as mesmas podem exercer elevada pressão de seleção sobre as populações de insetos-praga que são alvo do controle, deste modo, a expressão contínua das toxinas inseticidas ao longo do período de desenvolvimento pode ocasionar resistência às tecnologias Bts. Somando-se a este fato, as plantas tigueras são hospedeiras de patógenos que vem causando grandes perdas à cultura do milho, como por exemplo, os mollicutes causadores de enfezamento na cultura do milho.

Estratégias de manejo químico

Dessecação Pré-Plantio: logo após o início das primeiras chuvas, o uso de glifosato é primordial para controle de uma gama de plantas daninhas que não apresentam resistência ao herbicida, contudo, sabemos que a maioria das áreas apresentam biótipos resistentes a essa molécula como por exemplo, a Digitaria insularisConyza sp e Lolium multiflorum. Além dessas plantas daninhas, também temos híbridos de milho tolerantes ao glifosato, o que torna necessário o uso de herbicidas específicos para controle das invasoras com resistência a molécula de glyphosate, como é o caso dos herbicidas inibidores de auxinas (Conyza sp) e herbicidas/graminicidas a base de ACCase e, em alguns casos, o uso de produtos de contato (Carfentrazona etílica, Flumioxazina, Paraquate, etc.). Entretanto, no Brasil, a legislação proíbe misturas de tanque², o que dificulta a estratégia para aumentar o espectro de ação dos herbicidas contra as invasoras mencionadas. Outro cuidado que se deve ter é o antagonismo entre misturas (inibição de um dos mecanismos de ação), principalmente de latifolicidas com graminicidas.

Pós-emergente: quanto ao controle químico de plantas voluntárias, em pós-emergência de milho tolerante ao glifosato na cultura da soja com a mesma tecnologia, o manejo de controle é realizado a base de herbicidas/graminicidas inibidores do sítio de ação ACCase, que são herbicidas inibidores da síntese de ácidos graxos que atuam paralisando o crescimento e desenvolvimento celular. Entretanto, esta estratégia eleva os custos para o produtor e, muitas vezes, é ineficiente dependendo do estágio vegetativo em que se encontra a planta voluntária de milho. Além do mais, é necessário tomar cuidado com questões como: “carry over” que são resíduos de herbicidas que podem comprometer a cultura sucessora e o uso de subdosagem ou superdosagens de graminicidas para controlar o milho, pois esta última pode aumentar a pressão de outras plantas invasoras presentes na lavoura. Veja mais informações sobre a seleção de resistência de plantas daninhas aqui.

As principais moléculas do grupo ACCase estão presentes na tabela 1, com base em informações oficiais do Ministério da Agricultura para controle de milho tolerante ao glifosato na cultura da soja.

Grupo Nome Comercial Formulação Ingrediente Ativo Dose Comercial (L.ha-1) Solubilidade em Água (ppm)
Ariloxi - Fenoxi propionatos (FOPs) Verdict R EC Haloxifope-P-metílico 0,4 a 0,5 9,3
Fusilade 250 EW EW Fluazifope-P-butílico 0,5 a 0,75 1,1
Panther 120 EC EC Quizalofope-P-tefurílico 0,3 a 0,4 0,4
Oxima Ciclohexanodionas (DIMS) Poker / Select 240 EC EC Clethodim 0,35 a 0,45 55520
Aramo 200 EC Tepraloxydim 0,375 a 0,5 430
Poast DC Setoxidim 1,25 257
Poast Plus DC Setoxidim 2,0 257

EC= concentrado emocionável; EW= Emulsão óleo em água; DC= concentrado dispersível
Tabela 1 - Principais moléculas do grupo ACCase

A eficiência do controle químico com o uso de graminicidas também esta correlacionada com o estádio fenológico da planta voluntária, conforme foto 3:


Foto 3 – Eficiência do controle químico

O controle químico é uma ferramenta efetiva e eficaz nos primeiros estádios vegetativos (2 a 3 folhas), sendo que tanto graminicidas do grupo Ariloxi-fenoxi propionatos (FOPs) e Oxima ciclohexanodionas (DIMs) apresentam eficiência semelhante no controle até o estádio vegetativo. Gradualmente, quanto mais avançados os estádios, mais difícil o controle das plantas voluntárias de milho e, consequentemente, maior dose e aumento de custos. Neste caso, os graminicidas FOPs apresentam maior eficiência em nível de campo, em relação aos DIMs. Normalmente, estão sendo necessárias duas aplicações de graminicidas seletivo em pós emergência, havendo registros a campo de 3 até 4 aplicações para o controle. Isto tudo dependente do fluxo de germinação das espigas remanescentes no solo.

Importante destacar que a dose comercial tem suas variações e sempre deve ser determinada de acordo com o estádio do alvo biológico que se deseja controlar. Outro ponto de grande relevância é a eficiência da aplicação, pois de nada adianta ter os melhores produtos, melhores equipamentos de aplicação e tecnologia embargada se não estivermos atentos para parâmetros básicos como condições climáticas, tipo de ponta, cobertura de gotas, pressão, entre outros fatores. Além dos parâmetros citados, na aplicação de graminicidas, devemos sempre fazer uso de adjuvantes recomendados pelas empresas fabricantes.

Em suma, o sistema de sucessão soja e milho com adoção da mesma biotecnologia tolerante ao glifosato é complexo, preocupante e desafiador para a agricultura. A agricultura cada vez mais exige da nossa parte dedicação, conhecimento dos cenários e dinâmicas de manejo de uma lavoura. É preciso estar preparado!

Dúvidas sobre o manejo de milho vountário em lavouras de soja? Envie sua pergunta para nossa equipe no espaço de comentários.

¹Agrônomo de Campo na DuPont Pioneer
²A DuPont Pioneer não recomenda a mistura de tanque de graminicidas seletivos ou produtos de contato. Estes tipos de misturas são proibidas por lei.

Referências:

ADEGAS, F. Pesquisa aponta necessidade de manejo para controlar plantas tigueras mais resistentes. Disponível em: . Acesso em: 05/04/2017. 
AGROFIT. Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em: . Acesso em 07 de março de 2017.

Fonte:http://www.pioneersementes.com.br
Autor:or Adilson Policena dos Santos¹
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